Globo demite Renato Machado, Francisco José e Isabela Assunção

Os jornalistas Francisco José, Renato Machado e Isabela Assumpção, todos com mais de 40 anos de serviço, foram os últimos desligamentos do jornalismo da Rede Globo. Ao todo, nove nomes consagrados do jornalismo da Globo foram dispensados

Os jornalistas veteranos Francisco José e Renato Machado, ambos com mais de 40 anos de serviços prestados à Rede Globo, foram demitidos hoje, segunda (29/11). Na onda de desligamentos da emissora, a jornalista Isabela Assumpção também foi demitida na última sexta, 26, após 41 anos na Globo. Outros jornalistas consagrados como Alberto Gaspar, Ari Peixoto, José Hamilton Ribeiro, Eduardo Faustini, Alexandre Oliveira e Linhares Júnior completam a lista de desligamentos.

Segundo a apuração do UOL, as demissões estão de acordo com a nova política da empresa, que está em um processo de contenção de gastos, contratando novos repórteres e dispensando jornalistas mais experientes com altos salários.

A jornalista Isabela Assumpção, de 72 anos, informou em um texto de despedida, enviado para colegas de redação, que sua demissão foi informada por telefone, após 41 anos de emissora. “Fui demitida depois de 41 anos de emissora. Demitida por telefone. Assim, sem mais. Foi duro, está sendo duro. Eu gostava do que fazia. Mas nesse gostar havia muito da parceria com vocês. Uns amigos antigos, outros, mais recentes. Mas pra mim a dupla que formei, com cada um de vocês, foi além da soma texto/imagem”, disse Isabela em um trecho de seu texto de despedida.

Ali Kamel, diretor de jornalismo da Globo, enviou cartas por e-mail para se despedir dos jornalistas Francisco José e Renato Machado, demitidos nesta segunda, 29. Kamel elogiou o profissionalismo de ambos e destacou que os dois ainda têm trabalhos inéditos para serem exibidos, principalmente no Globo Repórter.

Confira as cartas na íntegra de Ali Kamel para os jornalistas Francisco José e Renato Machado, demitidos hoje (29/11):

Carta ao jornalista Chico José, demitido da Globo

“Chico José, cearense de Crato, começou a trabalhar como jornalista em 1966 no Jornal do Commercio do Recife, antes mesmo de a profissão ser regulamentada, como ele gosta de frisar. Pelo jornal, Chico cobriu duas Copas do Mundo e chamou a atenção de Armando Nogueira, que o convidou para ser repórter e apresentador do Globo Esporte. O programa começaria a ser exibido na capital pernambucana. Depois de estrear em frente às câmeras, em 1975, achou que a TV não era para ele.

Chico estava enganado.

Há 46 anos, vem fazendo uma carreira brilhante na Globo. Ao longo de sua trajetória, pelo Esporte, Chico participou de quatro Copas do Mundo e duas Olimpíadas. No jornalismo, coleciona histórias inesquecíveis: foi o primeiro repórter do Nordeste a aparecer no JN, mergulhou ao vivo na Baía de Guanabara durante a Rio-92 (um feito inédito e antológico), cobriu a Guerra das Malvinas (quando chegou a ser expulso pelo militares), acompanhou dezenas de apresentações do Galo da Madrugada, mostrou ao Brasil a importância das festas de São João, acompanhou o papa João Paulo II na Coreia, revelou ao país as primeiras imagens do naufrágio do Bateau Mouche e alcançou a impressionante marca de 103 edições do Globo Repórter… Sim, não é erro de digitação: são 103 programas com reportagens dele, um feito. Esses são apenas alguns dos muitos momentos em que Chico deixou sua marca.

Aliás, foi no Globo Repórter que ele mostrou seu lado aventureiro. Pulou de bungee jump, mergulhou com tubarões, seguiu onças na Amazônia, mostrou a vida selvagem na África do Sul e os tesouros do Caribe, encarou elefantes-marinhos na Patagônia e muito mais. Foi ao Polo Norte e ao Polo Sul. Em 2013, Chico foi finalista do Emmy com um Globo Repórter sobre a rotina e os rituais dos índios enawenê-nawê, na Amazônia.

Mas nada representa mais Chico José do que sua identificação com o Nordeste. É um apaixonado. Durante dez anos, fez coberturas da seca e da miséria que assolavam o sertão nordestino. Em 2008, percorreu seis capitais para mostrar, ao vivo, o São João no Jornal Nacional. Por 15 anos, ao lado de Beatriz Castro, apresentou e fez reportagens no programa local de meio ambiente Nordeste Viver e Preservar.

Recebeu vários prêmios, inúmeras homenagens e títulos – entre eles o de Cidadão Pernambucano. Convidado para ser correspondente internacional, nunca quis. Costuma dizer que não troca o Nordeste por nenhum outro lugar do mundo. Mas tem no currículo reportagens feitas em todos os continentes. Tem um jeito único de fazer reportagem: envolvente, cativante, leva o espectador para onde ele está. Com palavras precisas, com cenas que marcam.

Eu o conheci pessoalmente ao chegar à Globo, numa visita que fiz ao Recife. Depois dos afazeres na redação, aceitei o convite dele para almoçar. Andando pelas ruas, pude comprovar quanto é querido, tratado como família pelos pernambucanos, carinho puro, que ele retribui. Uma conversa com ele nunca é curta e é sempre prazerosa. Num de nossos encontros mais recentes, tínhamos uma agenda breve, mas quando nos despedimos já havia se passado uma hora. Conversamos sobre a profissão, o fazer jornalístico, a vida. Chico é um baú de boas histórias e um observador agudo. Jo Mazarollo me disse dele: ‘Adora contar histórias. As histórias das reportagens e as histórias que surgem enquanto está fazendo as reportagens’. É verdade.

Há três anos, começamos a conversar mais detidamente sobre este movimento que se conclui hoje. Primeiramente, deixou o dia a dia para se dedicar aos projetos que tinha no Globo Repórter. Para a nossa alegria e satisfação do público, fez o que planejou. Em outubro, partiu para o Atol das Rocas, período mais propício para realizar a reportagem há muito sonhada. O resultado, como sempre, superou todas as melhores expectativas. Ao dar o ponto-final no texto, ao pronunciar as últimas palavras do programa, encerrou com chave de ouro esses 46 anos de Globo. O resultado vai ao ar em 25 de março do ano que vem. Como planejado.

Eu agradeço ao Chico José, cearense do Crato, cidadão de Pernambuco, jornalista do Brasil, por todo o legado que nos deixa e por tudo o que fez pelo nosso jornalismo. Em meu nome, no nome da Globo e no de seus colegas.”

Carta ao jornalista Renato Machado, demitido da Globo

“A primeira vez que conheci Renato Machado pessoalmente foi em Brasília, na cobertura do impeachment de Collor, eu pelo Globo e ele pela TV. Estávamos na casa de Eliane Cantanhêde com outros tantos jornalistas – e Renato encantando a todos com suas histórias bem-humoradas. Quando cheguei à Globo, em 2001, ele já era apresentador e editor-chefe do Bom Dia Brasil, programa cujo novo formato ele ajudou a criar, em 1996, com mais conversa, mais análise. Sucesso imediato, passou a pautar as redações sobre o que vinha pela frente. Tivemos, nesse período, um contato estreito – especialmente durante as coberturas eleitorais, quando preparávamos as entrevistas que seriam feitas com os candidatos. Atento, atencioso, certeiro.

Renato tem uma experiência invejável no jornalismo: BBC de Londres por dois anos, Jornal do Brasil por 14, e, na Globo, desde 1982 (com apenas um ano de afastamento, quando trabalhou para a TV Manchete). Aqui, foi repórter especial, correspondente em Londres por dois longos períodos e editor-chefe e apresentador do Bom Dia Brasil por 15 anos. Cobriu de tudo: guerras, atentados terroristas, revoluções, tragédias, escândalos políticos, acontecimentos culturais, entrevistas com grandes personalidades internacionais. Poucos alcançaram tamanho êxito. Entre as coberturas marcantes das quais participou, eu destaco aquela do acidente nuclear de Chernobyl, em 1986. O stand up que fez, à beira de uma lagoa em Upsala, mostrou a qualidade do seu texto e a capacidade de explicar fenômenos complexos. Eu cito de memória e peço desculpas pela inexatidão. Mas era algo assim: ‘A radioatividade fica presa nas águas paradas do lago, contaminando tudo, inclusive este chão onde piso. E é exatamente por isso que devo sair daqui logo’. Virou-se de costas e partiu. Algumas palavras, um gesto, e o público entendeu a dimensão da tragédia.

Renato está há cinco anos no Globo Repórter. E não me surpreende que logo o primeiro programa dele tenha sido indicado ao Emmy, na categoria Atualidade. Emprestou certamente ao programa sua experiência com o jornalismo internacional, que começou já na sua estreia na BBC, em 1967. Mas também o traquejo no manejo de temas nacionais, culturais e de comportamento. A câmera gosta dele e o público mais ainda.

A maneira cordata que deixa transparecer no vídeo é a mesma com que trata colegas e amigos. Um profissional ímpar, um colega gentil e um amigo querido.

Também ele, como Zé Hamilton Ribeiro e Chico José, de quem já falei, combinou comigo a sua saída. Foi tão logo voltou de Londres. Um planejamento de longo prazo e por etapas. Segundo nosso acerto, sairia em 2020, mas adiamos para o fim deste ano por conta da pandemia.

Renato deixa um legado de bom jornalismo. É um exemplo do profissional de excelência. Em meu nome, em nome da Globo e de seus colegas, muito obrigado.”

Por O Povo e UOL

 

 

 

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