Médicos entregam cargos após episódio envolvendo filho de prefeita em Pio IX

Os médicos do plantão do Hospital Dona Lourdes Mota, no município de Pio IX (a 434 km ao sul de Teresina), entregaram os cargos depois que o médico,  Marcus Vinicius Rodrigues Nelson, foi agredido por um paciente durante plantão na última terça-feira (06). O profissional chegou a  registrar Boletim de Ocorrência após as agressões, que segundo ele foram físicas e verbais.

O paciente acusado das  agressõe é filho da prefeita da cidade, Regina Coeli (PSB). Segundo a prefeita, o filho é usuário de drogas e teria tido um surto por uso de substâncias químicas. Porém, o médico Marcus Vinícius e outros os profissionais de saúde afirmam que, além das agressões sofridas, foram humilhados pelo ex-prefeito da cidade, que é irmão da prefeita e tio do paciente.

“Foi na terça pela manhã. Atendia os pacientes e comecei a ouvir um barulho do lado de fora. O rapaz estava no corredor com os policiais e muito agressivo, queria se soltar e falava palavrões. As pessoas queriam que eu medicasse para acalmá-lo. Ele perguntou se eu era o médico. Disse que sim. Pelo que entendi, ele queria que eu fizesse uma inspeção no corpo dele ou algum documento para mostrar que ele foi agredido pelos policiais. Levei para sala de emergência. Não tinha nenhum documento pedindo que eu fizesse isso. Era mais para ouvir, conter e fazer a medicação. Ele começou a puxar meu braço, apontando o dedo da minha cara. Ele se irritou e começou a me ameaçar de morte. Disse que eu era um doutor morto. Usando termos pejorativos. Por recomendação do restante da equipe, me afastei. Não vou medicar alguém que me ameaça de morte. Não sou obrigado. No momento que isso aconteceu, não tinha nenhum policial. Não sei se ficaram do lado de fora esperando”, relata o médico.

Segundo o médico,  ex-prefeito tio do paciente teria dito que iria substituir toda a equipe do hospital após o episódio. Os médicos resolveram entregar os cargos, depois das declarações do ex-gestor.

“Chegou o tio do paciente e começou a dizer que iria trocar o corpo clínico do hospital inteiro. Depois disso, eu e os outros médicos resolvemos sair. É como se ele desse razão ao paciente. O paciente é filho da prefeita. Os colegas também se chatearam e entregaram a escala.   Eu já iria entregar pelo o que aconteceu. E os colegas entregaram após as declarações do ex-prefeito. Não tenho nenhum envolvimento com política na região. A questão é que não sou obrigado a medicar um paciente que me agride e ameaça de morte”, afirmou.

Prefeita tambén fará B.O.

A prefeita Regia Coeli se manifestou sobre o caso. Ela reconhece que o  filho estava em surto. Mas afirma que a família esperava  que o médico receitasse os medicamentos, para que o paciente se acalmasse e pudesse ser internado em uma clínica de reabilitação.

“Meu filho é dependente químico e surtou. Me achando impotente, chamei a polícia. Não tinha outra saída. E disse ao policial que agisse como agiria com qualquer um. O policial levou para o hospital para aplicar a medicação para que ele se acalmasse. Ele foi indelicado com os policiais, com o médico e com as pessoas que ele tinha encontrado na rua. Seria comigo, se tivesse chegado perto, porque ele não estava em si. Com os mais próximos são os que ele mais se voltam contra, não fui onde estava. Fiquei em uma sala ligando para uma clínica para achar vaga. Queríamos que fosse aplicada a medicação para que ele fosse levado para internação. Não é a primeira internação. Era só isso que precisava ter sido feito”, afirma.

Regina Coeli afirma que a dependência do filho é de conhecimento público e que vai fazer um Boletim por omissão médica.

“O médico se recusou a atender e disse que foi agredido. Estive com o médico e não vi nenhum sinal mais sério de agressão. Meu filho estava com o braço roxo porque o policial teve que contê-lo. E não achei que isso fosse incorreto porque era preciso conter. Estava conversando com uma pessoa da clínica de internação quando o médico entrou muito exaltado e disse que ele fez isso porque era filho de prefeita. Eu disse que não. Quem me conhece sabe que nunca passei a mão na cabeça de meu filho. Disse que o médico é que discriminava meu filho por ele ser filho de prefeita. Ele estava ali para tomar medicação. Como o médico ficou exaltado e disse coisas indelicadas, disse para ele que não estava preparado para receber um paciente surtado. O médico era desumano porque a polícia estava ali para contê-lo, caso fosse necessário. Ele só precisava prescrever a medicação. Ele não prescreveu. A medicação foi feita por outro médico. Eu disse que ele abandonasse o plantão, porque ele era incapaz de receber um paciente surtado. Ele e outros médicos foram redigir um documento para me denunciar. Vou fazer um B.O.  por omissão de socorro”, afirma.

O Conselho Regional de Medicina publicou nota de desagravo público em favor do médico. Segundo o documento, o médico tem o direito de se recusar a atender um paciente em situação de agressão.

“A autonomia do médico para exercer sua profissão é resguardada pelas normas éticas, não podendo o profissional médico, em nenhuma circunstância ou sob qualquer pretexto, renunciar à sua liberdade profissional, nem permitir que quaisquer restrições ou imposições possam prejudicar a eficiência e a correção do seu trabalho. Ademais, o médico tem o direito de não mais atender paciente que adote postura de desacato, difamação, calúnia, ofensa ou agressão, desde que ressalvadas as situações de urgência e emergência e após comunicar sua decisão ao assistido ou ao seu representante legal”, diz a nota.

Veja nota na íntegra: 

 

Lídia Brito/Cidade Verde

 

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