O desespero da família do primeiro morto no Brasil por coronavírus

De origem humilde, pai e dois irmãos da primeira vítima fatal de coronavírus no Brasil estão internados em estado grave. Enganados por hospital, família soube da morte pela imprensa e não compareceu ao enterro. Embora todos estejam doentes, nenhum ainda foi testado. A mãe, que também apresenta sintomas, fez um desabafo comovente.

“Eu não me conformo de perder meu filho em um problema tão grave e de não ter participado sequer do enterro. Eu só espero que as pessoas acreditem — esse problema existe e está aqui”.

O desabafo acima é da senhora de 82 anos que se tornou a primeira mãe a perder o filho para o novo coronavírus no Brasil. Ela está isolada em casa com sintomas da doença e disse nesta quinta-feira (19) estar preocupada com o marido, de 83 anos, e os outros dois filhos, também idosos, que estão internados.

O filho dela, Manoel Messias Freitas Filho, um porteiro de 62 anos, foi o primeiro caso do estado de São Paulo e do Brasil de morte pelo novo coronavírus (Sars-Cov-2), na terça-feira (17).

A mãe de Manoel também tem sentido dores físicas. “Eu estou sentindo mal-estar no corpo, uma sensação ruim, boca seca, boca amarga, é tudo”, disse.

Um sobrinho da vítima disse que a família só soube a causa da morte no enterro, pois o caixão estava lacrado. Ele confirmou que outras pessoas da família estão internadas em estado grave, e que nenhuma fez teste para o novo coronavírus.

“No velório falaram que deveria ser de caixão fechado, e nisso a gente teve um estalo de que tinha alguma coisa errada, que estavam omitindo alguma coisa da gente”, disse o homem, que preferiu não se identificar.

“Cinco pessoas moravam com meu tio que faleceu e, infelizmente, até agora ninguém ninguém fez o teste. Eu tenho mais uma tia e um tio no hospital, todos na UTI. Meu avô agora teve um quadro de piora”, completou.

Tristeza e indignação da irmã

Maria da Graça Freitas tem 53 anos e é a irmã mais nova do porteiro que foi vitimado pelo coronavírus. Ela conta que o que mais dói é o choro e a tristeza da mãe por não ter podido ir ao enterro do filho. O pai e os outros três irmãos também faltaram. Todos têm doenças respiratórias. Ela disse que quase faltou gente para segurar a alça do caixão.

Assim como revelou o sobrinho da vítima, Maria da Graça expressa indignação com a falta de informação do hospital. Ela conta que soube pela imprensa que o irmão morreu de covid-19. “Cheguei em casa depois que enterrei meu irmão e foi na televisão que vi a causa da morte. Falta de respeito e humanidade com a gente.”

Maria da Graça declarou que ninguém imaginou se tratar de coronavírus. Manoel Messias não tinha tosse ou coriza. Ele procurou o hospital da rede Prevent Senior na terça-feira da semana passada e foi enviado de volta para casa. O quadro piorou e, no sábado, retornou à unidade de saúde se queixando de falta de ar. Maria da Graça contou que a respiração era curta, quase ofegante.

Desta vez, foi internado na mesma hora. Ainda no sábado, entubaram Manoel. A irmã se espantou com a rapidez da evolução da doença. No domingo, foi informada que os exames apontaram que os pulmões estavam comprometidos. Pouco tempo depois, os familiares foram avisados que havia risco de ele morrer.

No dia seguinte, a família nomeou Maria da Graça para ir atender à solicitação do hospital de que um familiar se apresentasse na unidade Sancta Maggiore do bairro Paraíso. Ela chegou às 11 horas e foi informada que tentavam reanimar Manoel de uma parada cardíaca. Ele resistiu durante 25 minutos.

“A evolução da doença foi uma coisa muito rápida. O que eu queria alertar é que se cuidem, porque espalha muito rápido. Só tem que sair de casa por pura necessidade. Fiquem dentro de casa e lavem bem as mãos. A coisa está feia. Falo pela minha família.”

Fonte: Pragmatismo Político

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