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Brasileira vence prêmio da Nasa ao descobrir nove asteroides; conheça sua história

Estudante de 18 anos de uma comunidade da zona leste paulistana explica como ganhou um prêmio do MCIT, em parceria com a Nasa, pela caça a esses corpos celestes a partir de imagens de telescópio

A paulistana Ana Beatriz Rodrigues Carvalho, 18 anos, foi criada em uma comunidade do bairro de São Mateus, em São Paulo, e concluiu o Fundamental e o Ensino Médio em  escola pública da zona leste paulistana. Mas nem o céu foi limite para a explosão de seu talento como estudante e pesquisadora. Ainda na juventude, Ana Beatriz se transformou em uma caçadora de asteroides premiada e de talento raro.

Filha de uma professora estadual e de um encarregado de estoques, ganhou um prêmio organizado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, o MCTI, em parceria com a Nasa, a agência espacial americana, e a agência internacional de colaboração para pesquisas astronômicas, a International Astronomical Search Collaboration (IASC).

Asteroides são corpos rochosos, tipos de rocha, geralmente com estrutura composta de metais e minerais, minérios. O mais destacado na História aniquilou a Era dos Dinossauros ao se chocar com a Terra.

Nesta conversa com o R7 ENTREVISTA, Ana Beatriz, que fez 38 cursos na área até agora e vai iniciar o curso de Física em 2023 (foi aprovada no vestibular da Unicamp e espera outros resultados), dá explicações sobre esses corpos celestes e revela como se interessou pelo tema e o que a levou a conquistar o prêmio e o reconhecimento precoce. Sucesso escrito nas estrelas – ou nos cinturões de asteroides. Acompanhe:

ANA BEATRIZ RODRIGUES CARVALHO

Em primeiro lugar, vamos a uma aula da professora Ana Beatriz. O que são asteroides?
Ana Beatriz Rodrigues Carvalho – São corpos rochosos, tipos de rocha, geralmente com estrutura composta de metais e minerais, minérios.

Em resumo, um grande pedrão.
Mais ou menos isso (risos).

Na premiação (à dir.) com amigos e a parceira de pesquisa Ivna Lohana (de máscara)

ARQUIVO PESSOAL

É certo dizer que a Era dos Dinossauros foi extinta na Terra pela pancada de um imenso asteroide?

Sim, mas todos morreram não apenas pelo impacto. O que foi gerado em seguida também influiu – e muito. O choque fez subir uma nuvem de poeira que afetou o ecossistema, deixando o ar irrespirável. A Nasa estima que um asteroide da proporção daquele da Era dos Dinossauros poderá atingir a Terra em intervalos de até cem mil anos.

Dinossauros morreram não apenas pelo impacto do asteroide. O que foi gerado em seguida também influiu – e muito. O choque fez subir uma nuvem de poeira que afetou o ecossistema, deixando o ar irrespirável. A Nasa estima que um asteroide da proporção daquele da Era dos Dinossauros poderá atingir a Terra em intervalos de até cem mil anos

ANA BEATRIZ RODRIGUES CARVALHO

Verdade?
Sim. Por isso é tão importante mapear essas trajetórias. As informações ajudam a saber onde eles estão e a criar tecnologias de defesa do planeta antes dos choques. Até mesmo em relação a asteroides menores, que provocaram prejuízos e vítimas na Terra em anos e décadas anteriores. Há relatórios sobre isso na Nasa. Esses estudos colaboram também para as chances de capturar partes desses corpos, para estudo, antes deles caírem por aqui.

Existe a chance de os seres humanos serem aniquilados na Terra com mais uma pancada desse tipo?
Sim, sempre existe.

Então, por gentileza, caprichem nas pesquisas. Conte-nos um pouco sobre você.
Nasci e fui na zona leste de São Paulo, numa comunidade, ou favela, em Carrãozinho, no bairro de São Mateus, região da Avenida Sapopemba. Meu pai veio de Pinheiral, no sul do Estado do Rio. É encarregado de estoques, trabalha com empilhadeiras. Minha mãe, nascida em Montes Claros, no norte de Minas Gerais, é professora estadual em São Paulo. Tenho 18 anos e uma irmã gêmea, Ana Carolina. Por fora somos iguaizinhas (risos). Mudam as características e gostos pessoais. Exmplo: sou das ciências exatas, da Física, e ela, das humanas, quer fazer Direito. Estudamos todos os anos nas mesmas salas, na Escola Estadual Chibata Miyakoshi, que funciona como classe descentralizada da Escola Técnica Estadual, a Etec, de Sapopemba.

No intervalo de um curso no Instituto de Física Teórica da Unesp

ARQUIVO PESSOAL

Como passou a se interessar pelos asteroides?

Meus pais sempre valorizaram a educação. Minha irmão e eu aprendemos a ler e a escrever antes de entrarmos na escola. Eles gostam de repetir que farão de tudo por nossa formação porque é a única coisa que ninguém poderá tirar de nós duas no mundo. Mas nunca quiseram censurar ou direcionar nossas escolhas nos estudos. Conheci um professor de Física no Ensino Médio, o Arthur, e me apaixonei pela matéria, que não tivemos no Fundamental. Sempre gostei muito de Matemática, de entender, por meio dela, como a natureza funciona. Ele me deu incentivo, indicou vários dos cursos que fiz. Devo muito a ele e a outros professores.

E como os asteroides entraram na sua vida?
No início de 2022, em meio às pesquisas, encontrei uma postagem sobre um projeto de caça aos asteroides no site do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação do Brasil, o MCTI. Achei muito bacana e fiquei louca para participar do projeto. Era obrigatório ser de uma equipe, e eu não tinha. Comecei a pedir, no site, para alguém me incluir em uma equipe, até que, para minha alegria, comentaram: “essa menina está com muita vontade”. E atenderam meu apelo. Fui incluída em uma equipe com nove estudantes do Maranhão, Paraná, Rio Grande do Sul e São Paulo.

Como funciona o programa?
A equipe faz a inscrição e espera a análise. Quando o grupo é aceito, recebe pacotes de dados por e-mail, para análise. Esses pacotes são feitos a partir de imagens captadas de um cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter por um telescópio, o Pan-STARRS, montado no Havaí, nos Estados Unidos. Essas informações são enviadas para a gente e inseridas em um software chamado Astrometrica, de medição precisa da posição de estrelas e corpos celestes. Aí iniciamos as campanhas de busca ou caça aos asteroides, Cada uma delas dura um mês. Participei de quatro em 2022.

O que vocês fazem com as imagens?
Elas são decodificadas pelo software e se transformam em vídeos. São quatro imagens da mesma sequência, em momentos diferentes, mas muito próximos uns dos outros. Conseguimos identificar os asteroides pelo movimento. Quando localizamos um se movimentando, analisamos requisitos como velocidade de deslocamento. Ele se movimenta nas quatro imagens? Sim. Então aquele estudo prossegue. Do contrário, paramos ali.

Fazendo palestra na ETEC Sapopemba, em São Paulo, onde estudou (de pé)

ARQUIVO PESSOAL

Minhas nove descobertas estão na fase preliminar. Neste ponto, quem detectou pode dar um nome ao asteroide, desde que não tenha referências a terrorismo, questões ideológicas ou políticas e coisas do tipo. Depois, se você foi o primeiro a localizar aquele corpo, e diante da confirmação de que se trata De um asteroide, ele passa e ser preliminar e seu, identificado por você. Um preliminar é registrado em uma semana. Para ser reconhecido como provisório, pode levar um ano ou mais

ANA BEATRIZ RODRIGUES CARVALHO

Como os asteroides são classificados? O que te fez ganhar o prêmio?

A premiação é anual. Ganha a equipe e o participante que conseguem detectar, descobrir ou incorporar algo sobre algum asteroide. Consegui detectar nove em 2022. A Ivna, líder do meu grupo, encontrou dois e também foi premiada. Há duas classificações: as preliminares, chamadas de detecções fracas, e as provisórias, as fortes. Minhas nove descobertas estão todas na fase preliminar. Neste ponto, quem detectou pode, inclusive, dar um nome ao asteroide, desde que não tenha referências a terrorismo, questões ideológicas ou políticas e coisas do tipo. Depois, se você foi o primeiro a localizar aquele corpo, e diante da confirmação de que se trata mesmo de um asteroide, ele passa e ser preliminar e seu, identificado por você. Um preliminar é registrado em uma semana. Para ser reconhecido como provisório, pode levar um ano ou mais. A propósito, gostaria de esclarecer um ponto justo e importante.

Fique à vontade.
Ao contrário do que foi divulgado por alguns veículos de comunicação, o prêmio que ganhei não é oferecido pela Nasa, a agência espacial americana, e sim pelo ministério brasileiro, o MCTI. A Nasa e a agência internacional de colaboração para pesquisas astronômicas, a International Astronomical Search Collaboration (IASC), são parceiras do projeto. Os asteroides são analisados por seus cientistas, o telescópio do Havaí, que capta as imagens, é um dos administrados no mundo pelo IASC, mas a premiação é feita pelo MCTI, o ministério brasileiro, não pela agência americana. Como a participação da Nasa é decisiva no projeto, creio que isso tenha gerado alguma confusão no início.

Quantos cursos na área de Física você fez?
Pelas minhas contas, 38 até agora. Em setembro de 2022, fiz um, de ondas gravitacionais, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, a UFRN. Para minha alegria, fui considerada uma das melhores alunas, entre muitos participantes de nível superior.

Você concluiu o Ensino Médio no final de 2022. E a faculdade?
Passei no vestibular de Física na Universidade de Campinas, a Unicamp. Estou aguardando os resultados da Unesp e das próximas chamadas da USP para decidir onde estudar. Fiz o três para Física. Vamos ver.

Pretende estudar ou trabalhar fora do Brasil depois do curso superior?
Posso até aprimorar conhecimentos fora do país em algum momento, mas minha ideia é trabalhar aqui, para incentivar jovens como eu, que pretendem superar as dificuldades, e retribuir tecnicamente o que o país me deu. Só sairei para trabalhar definitivamente no exterior se o Brasil não me quiser ou não me oferecer oportunidade.

Vamos torcer para o país não abrir mão do seu talento. Parabéns e muito obrigado.
O agradecimento é meu.

Fonte: Eduardo Marini, do R7

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