Abertura do comércio deve provocar novo pico, aponta estudo da Ufpi

Teresina e o Piauí andam muito longe da situação da Nova Zelândia. Enquanto aqui os números de casos de covid-19 crescem a cada dia, apesar de uma leve redução no grau de infecção, por lá eles zeraram a transmissão comunitária. A diferença é que os neozelandeses vão abrir o comércio com responsabilidade, enquanto aqui os empresários e o próprio governo parecem estar um tanto apressados.

Quem explica isso é Emídio Matos, doutor em biologia celular e tecidual pela USP e membro do Núcleo de Estudos em Saúde Pública da UFPI, além de coordenador do Plano de Ação Interinstitucional de Enfrentamento à Covid-19, onde um dos eixos é a Sala de Situação, coordenada pelo Prof.Bruno Guedes.

Dr. Emídio Matos. Crédito: arquivo pessoal.

Os estudos iniciaram no começo da crescente de casos. “Estamos  analisando, desde o dia 12 de abril, a questão do novo coronavírus. Neste último levantamento, especialmente, estamos discutindo a saída do isolamento. Estamos trabalhando diretamente com a prefeitura, no intuito de aumentar a capacidade de testagem. A gente começou essa preparação da população no Poty Velho, criando líderes por rua para preparar a população e fazer busca ativa de casos. Assim poderemos pensar em condições de reabertura, mas mais para frente”, avalia.

O levantamento tem como matriz 70% dos dados epidemiológicos e 30% de dados de economia. “Acabamos dando uma importância maior à saúde que a economia. Entendo que precisamos preparar a população, mas este momento não é interessante. A curva continua apontando para cima, até estabilizar em um platô. Os países que fizeram isso bem feito, esperaram o platô cair. Na Nova Zelândia esperaram não haver mais nenhum caso, e aqui anda muito longe disso”, revela Emídio Matos.

Novo pico deve vir do interior e litoral com até 11 mil novos caso

As regiões Norte e Sul do Piauí apresentam uma crescente ainda maior que a capital, que conseguiu controlar o vírus a partir de medidas de isolamento social. O problema é que agora será o inverso: antes Teresina espalhou o vírus, mas agora o vírus deve vir do interior e chegar novamente à capital. “O caso zero foi em Teresina, que iniciou uma grande propagação. A série histórica de isolamento social de Teresina começou bem, mas depois foi caindo. No entanto, isso reduziu o impacto da infecção. A medida tomada 14 dias atrás só vai reduzir hoje”, explica Emídio Matos.

Há um ponto importante que mostram projeções de mais mortes. “Estamos fazendo uma projeção de sete dias que deve acrescentar entre 10 e 11 mil infectados somente nas próximas duas semanas. É grave. Isso nos preocupa porque a abertura pode acentuar isso. A reabertura começa hoje, com várias limitações, daqui a 14 dias poderemos ver um grande estrago”, acrescenta o doutor pela USP.

Abertura do comércio indica colapso na saúde

Emídio Matos defende que haja união entre os executivos para entender que o isolamento social é a saída até a curva do platô diminuir. “Hoje, baseado nos critérios que estão postos, é um risco enorme abrir o comércio. Embora os governantes estejam pressionados pelos empresários, nós na universidade devemos priorizar a vida. Se abrirmos o comércio agora, será dramática uma abertura. Tanto que a Prefeitura de Teresina se opôs às medidas do Estado”, aponta o pesquisador da Ufpi.

Os países que abriram antes de atenuar a curva tiveram que fechar novamente por causa de um novo pico. “E o mesmo pode acontecer no Piauí. Não vivemos em uma ilha. Essa falta de unidade dos executivos prejudica. Deixa a população em dúvida de quem seguir. Isso parte do Governo Federal. Os dados de Teresina, hoje, mostram que estamos entrando em uma situação confortável. Mas as pessoas continuam transitando. E os casos graves acabam vindo para cá, com suas famílias. Há uma possibilidade de reinfecção vinda do próprio interior, como das regiões Norte e Sul”, prevê Matos.

A possibilidade de colapso no sistema de saúde é uma realidade, ainda que os governantes tenham aumentado o número de leitos. “Mas além de respiradores é necessária a capacitação de profissionais. E isso leva tempo. E isso ainda não há dados que possamos avaliar, pois as contratações ainda estão sendo feitas. Não é só infraestrutura, é de recursos humanos também. Fora o alto nível de profissionais com a doença”, finaliza.

Fonte: Meionorte

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