Novo pode perder maioria da bancada na Câmara dos Deputados

Sob o risco de ter candidaturas vetadas em 2022, parlamentares devem aproveitar ‘janela partidária’.

Dez dias atrás, ao concluir a votação do texto-base do projeto que altera o Código Eleitoral, o deputado Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara, fez um comentário sobre um parlamentar do partido Novo que deu o que falar no plenário e nas redes sociais, entre críticos e apoiadores da legenda.

“Todos já votaram no plenário? Eu ia perder ali o nosso deputado, futuro progressista, Marcel Van Hattem”, disse Lira, indicando que o parlamentar gaúcho, um dos oito representantes do Novo na Câmara, deixará a legenda e voltará ao PP, do qual saiu em 2018. Quando um deputado o alertou de Van Hattem que era “ex-progressista”, Lira não se fez de rogado: “Vai ser futuro. Ninguém se perde no caminho da volta”.

Diante da saia-justa, Van Hattem, que faz parte da ala que se opõe à posição do partido e de seu fundador e ex-candidato à Presidência, João Amoêdo, de apoiar o impeachment do presidente Jair Bolsonaro e de fazer oposição ao governo, apressou-se em negar a sua saída do Novo.

“Esse episódio foi uma brincadeira que o presidente Arthur Lira tem feito comigo desde o início do mandato, em 2019”, disse ao Estadão. “Só que, desta vez, ele fez isso ao microfone e acabou gerando, sem querer, um grande mal entendido. Nada além disso.”

Exôdo

Apesar do desmentido e de Van Hattem afirmar que o seu plano A “sempre foi e continua sendo” ficar no Novo, a possibilidade de ele deixar o partido, ao lado de quatro ou cinco colegas de bancada que rezam pela mesma cartilha, é real, e poderá se materializar na próxima “janela partidária”, em março, quando os parlamentares poderão mudar de legenda sem perder os mandatos, aprofundando o “racha” na agremiação.

Se o êxodo se confirmar, como tudo indica no momento, a bancada federal do Novo ficará reduzida aos deputados Tiago Mitraud (MG), que não deverá ser candidato à reeleição, Vinicius Poit (SP), já aprovado no processo seletivo como pré-candidato ao governo paulista, ambos mais alinhados com a ala de Amoêdo, e talvez Adriana.

Embora seja mais próximo ao grupo de “dissidentes” do Novo, o governador de Minas, Romeu Zema, outro candidato à reeleição, também deverá continuar no partido. Segundo Mateus Simões, secretário-geral do governo de Minas e homem de confiança de Zema, o governador não está diretamente envolvido na questão do impeachment e mantém uma “relação institucional” com o governo federal, uma vez que o Estado depende do repasse de verbas de Brasília para conseguir pagar as suas contas. Isso, em sua visão, diminuiria os pontos de atrito com Amoêdo e a direção partidária. “Posso garantir que a gente não trabalha com a necessidade de o governador mudar de legenda”, afirma. “Converso muito com os dirigentes do partido e, no momento, isso não faz sentido nem para o partido nem para o governador.”

Veto a candidaturas

Mais do que uma decisão voluntária, a migração dos parlamentares do Novo para outras siglas deverá ser a única alternativa para eles não ficarem sem legenda para participar do pleito do ano que vem. Apesar de os mandatários que queiram se candidatar à reeleição não precisarem passar novamente pelo processo seletivo realizado pelo Novo, eles poderão ser vetados nas convenções estaduais, que dão o aval final às candidaturas, por não apoiarem o impeachment e defenderem a adoção de uma postura “independente” pelo partido. “Se o entendimento dos convencionais for de que a neutralidade é uma forma velada de apoio ao Bolsonaro, é possível que as candidaturas de quem não segue as diretrizes partidárias sejam vetadas”, diz Eduardo Ribeiro, presidente do Novo.

Já Paulo Ganime, que participa do processo seletivo que definirá o pré-candidato ao governo do Rio, poderá perder o lugar para Juliana Benício, candidata do Novo à Prefeitura de Niterói em 2020, estimulada a entrar na disputa com o deputado pelos próprios dirigentes do partido.

Como o resultado do processo seletivo deverá ser anunciado até o fim de setembro, Ganime ainda terá tempo de aproveitar a janela partidária para mudar de legenda se for preterido, embora afirme que poderá até deixar a política caso isso aconteça. Mas os parlamentares que pretendem concorrer à reeleição não terão a mesma oportunidade.

Pelo calendário eleitoral, as convenções só deverão ocorrer em julho, três ou quatro meses depois da janela partidária. Se eles ficarem no Novo até lá, não poderão de trocar de partido caso as suas candidaturas sejam rejeitadas. Para evitar que isso aconteça, a intenção do Diretório Nacional é de definir a questão antes da janela. “Não é nosso interesse prejudicar a carreira política de ninguém”, afirma Ribeiro.

Há, ainda, o risco de os candidatos à reeleição ficarem sem legenda se forem punidos pela Comissão de Ética do partido. O deputado Alexis Fonteyne, por exemplo, tem um processo contra ele correndo no órgão por ter chamado Amoêdo de “calopsita” e poderá ser duramente penalizado por isso, a julgar pelas decisões tomadas em casos semelhantes recentemente.

Apesar de não haver prazo para a Comissão de Ética avaliar os processos pendentes, Fonteyne espera que a questão também seja definida antes da janela. “Imagine a loucura se você não mudar de partido na janela, por acreditar que o Novo iria lhe dar legenda, e de repente, lá na frente, ele não lhe der. “Aí, como é que fica? Você não poderá mais voltar atrás e mudar de partido.”

‘Movimento higienista’

Nos últimos meses, o “racha” em torno do impeachment e da postura de fazer oposição ao governo já levou o Novo a perder mais da metade de seus filiados, incluindo figuras históricas, como o cientista político Christian Lohbauer, um de seus fundadores e ex-candidato a vice na chapa de Amoêdo em 2018, que anunciou sua desfiliação na quinta-feira, 16.

Levou também à expulsão de parlamentares como os deputados estaduais, Bernardo Bartolomeu (MG), conhecido como Bartô, e o vereador de Caxias do Sul (RS) Maurício Marcon. Agora, porém, com a perspectiva de que haja a saída da maioria dos deputados federais do partido, a crise deverá alcançar um novo patamar.

Se a decisão depender dos mandatários, eles vão preferir continuar no partido. A maioria entrou na política pelo Novo, porque acreditou no projeto, e se diz identificada com os valores e princípios da legenda. Pelo que dizem, será uma grande frustração ter de deixar o Novo por uma questão conjuntural, que consideram menor, e não por discordar das grandes bandeiras partidárias, como a liberalização da economia, a privatização e o combate ao mau uso do dinheiro público e à corrupção. “Não dá para lidar com um movimento higienista dentro do partido”, afirma Mateus Simões. “Espero que a gente tenha condição de restabelecer o diálogo nos próximos meses, porque, sem mandatário, um partido político não existe. Eu nunca ouvi falar disso.”

Diferença ideológica

De acordo com Ganime, não há uma diferença ideológica muito grande entre as duas alas em que Novo se dividiu. “O que está dividindo o partido não é uma visão do que se quer para o País. Todos os mandatários que eu conheço têm a mesma opinião do partido, de não querer a eleição do Lula, do Bolsonaro ou do Ciro Gomes e querer uma opção que pacifique o País e possa conduzir o governo de forma sensata, sem polarização, sem discursos absurdos e sem ódio”, diz. “O problema é que uma parte de filiados acha que quem não quer impeachment é bolsonarista ou é contra os valores do partido, mas ser a favor ou contra o impeachment não é o que define quem é do Novo.”

Ainda que possa parecer estranho para muita gente, a possível saída dos deputados da legenda não parece preocupar nem a direção partidária nem Amoêdo. O fundador do partido afirma até que o “racha” é positivo. “Na minha avaliação, a saída de filiados que são contra o impeachment fortalece a unidade partidária, fundamental para o crescimento do partido”, disse Amoêdo, em publicação nas redes, ao comentar a desfiliação de Christian Lohbauer. “A nossa oposição ao governo e a defesa do impeachment irão continuar e nortear as nossas candidaturas em 2022”, afirma Eduardo Ribeiro. “É compreensível que os mandatários que não concordem com essa posição queiram buscar outro partido.”

Em meio à maior crise desde a fundação do Novo, em 2011, é difícil prever, porém, como será de fato o day after do partido, caso não seja possível contornar as divergências, em benefício de um objetivo maior, e o expurgo de “dissidentes” se aprofunde. O certo, desde já, é que o resultado desse processo, qualquer que seja ele, deverá redesenhar as faces política e partidária do Novo.

Por Estadão Conteúdo

 

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